Regeneração urbana e a economia circular

Requalificação da antiga área da Feira de Rimini (Emilia Romagna) Crédito da foto: Exposição Rigenera – Mia Cara/BRDE
Entrevista com a arquiteta italiana Nadia Calzolari, expoente do movimento urbanístico “Rigenera”
O aumento global da construção civil elevou as emissões de CO2 para uma alta histórica de 10 gigatoneladas em 2021. Assim, o setor está fora do caminho para cumprir as promessas de descarbonização até 2050, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma. O Relatório de Status Global de Edificação e Construção de 2022 conclui que o setor foi responsável por mais de 34% da demanda de energia e cerca de 37% das emissões de CO2 relacionadas à energia e processos em 2021.
No Brasil, o setor avança lentamente na aplicação dos princípios da economia circular, apesar do aumento de iniciativas de reaproveitamento de materiais e pesquisas sobre alternativas mais sustentáveis em todo o processo da construção civil. Mesmo assim, a construção civil segue gerando um volume muito grande de resíduos, muitas vezes resíduos que nem são recicláveis e ainda é carente de melhorias não só nos materiais utilizados, mas no uso de energia e água. Outro fator impactante é que mesmo com mais 6 milhões de imóveis desocupados em todo o Brasil, quase 50 mil novos imóveis foram lançados no primeiro trimestre de 2023 segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção.
Na Itália, a partir do início do novo milênio, com a escassez de novas áreas para empreendimentos imobiliários surgiu a necessidade de considerar o solo como um bem público, o espaço aberto, o vazio como fatores de qualidade do ambiente urbano. Iniciado em 2016, na região de Emilia Romagna (ao Norte da Itália), o movimento urbanístico “Rigenera” tem recuperado imóveis desativados dentro da perspectiva da economia circular.
O Blog Cidade AMA conversou com a arquiteta italiana Nadia Calzolari para entender como surgiu o movimento Rigenera e qual o seu impacto na transformação das cidades. Confira:
Quais são os princípios da arquitetura regenerativa?
Os princípios da arquitetura regenerativa nos processos de desenvolvimento urbano são a redução do consumo de solo para o desenvolvimento urbano; a recuperação de imóveis existentes desativados em uma perspectiva de economia circular; a inclusão da população nos processos de transformação urbana e pensar a cidade como espaço coletivo com corpo social ativo. Com o início do novo milênio, amadureceu na Itália a necessidade de considerar o solo como um bem público.
O principal mote é “reduzir o consumo de solo”, considerando-o um bem público em si e por si mesmo, cuja urbanização não poderia mais ocorrer infinitamente, sob pena de agravamento do espaço habitado com graves consequências sociais. Fez-se caminho a ideia de crescimento urbano baseado na recuperação de imóveis desativados, a cidade que progride e se redefine sobre si mesma. O aperfeiçoamento metodológico desses processos ainda está em andamento para refinar seus objetivos, propósitos e finalidades. A participação mostrou-se eficaz quando foi organizada como forma de fazer emergir necessidades, aprofundar o conhecimento dos lugares, imaginar modalidades inéditas de uso dos espaços.
Qual a principal motivação da iniciativa e os exemplos bem sucedidos?
O impulso à regeneração urbana na Itália ocorreu após a aprovação do DPCM (Decreto Presidencial) de 25 de maio de 2016. Com esse ato normativo, o Estado italiano aprovou o edital para apresentação de projetos para a qualificação e a segurança das periferias da Itália. No decreto, “considera-se periferia as áreas urbanas caracterizadas por situações de marginalidade econômica e social, degradação imobiliária e falta de serviços”. Essa definição legal permitiu considerar as periferias não como espaços “perdidos”, mas como lugares que precisam de cuidados para serem plenamente revividos.
O resultado do edital foi a apresentação de 120 projetos que envolveram áreas periféricas e desativadas, todos eles aceitos e financiados (DPCM de 6 de dezembro de 2016). A partir desse momento, iniciou-se um processo de renovação das cidades, que ainda está em andamento, sob o signo de uma concepção participativa e socialmente comprometida.
A Lei Regional da Emilia-Romagna de 21 de dezembro de 2017, nº 24, “DISCIPLINA REGIONALE SULLA TUTELA E L’USO DEL TERRITORIO” também representou um salto cultural significativo na concepção do desenvolvimento como ação não apenas quantitativa, mas qualitativa. O patrimônio construído e ambiental existente é considerado uma “fonte”.
Os seguintes são os princípios básicos desta lei fundamental:
a) conter o consumo do solo como bem comum e recurso não renovável;
b) promover a regeneração dos territórios urbanizados;
c) proteger e valorizar o território em suas características ambientais e paisagísticas;
d) proteger e valorizar os territórios agrícolas e suas capacidades produtivas agroalimentares;
e) contribuir para a proteção e valorização dos elementos históricos e culturais do território regional;
f) promover as condições de atratividade do sistema regional e dos sistemas locais;
g) promover níveis mais elevados de conhecimento do território e do patrimônio imobiliário existente.
Entre os exemplos bem-sucedidos estão as requalificações da antiga estação ferroviária de Porta Romana em Milão, que deu origem a um novo bairro residencial, comercial e cultural; da antiga fábrica de Mira Lanza em Roma, que foi transformada em um centro cultural e a área industrial de Porto Marghera em Veneza, que foi transformada em um parque urbano.
Qual o objetivo da arquitetura regenerativa?
O objetivo da arquitetura que regenera é modificar os lugares e não cancelá-los. Esse objetivo pode ser alcançado se o projeto de arquitetura for concebido não como uma disciplina técnica, mas como um processo complexo que deve incluir diferentes saberes e um conhecimento dos lugares atento e difundido.
O arquiteto nesse processo é ao mesmo tempo idealizador do aspecto morfológico e coordenador da participação. É seu papel específico ser o diretor da modificação que deve orientar levando em consideração o respeito pela memória dos lugares com sensibilidade atenta à contemporaneidade cultural e artística.
A cidade permanece como tal se, nos processos de modificação, se valoriza sua dimensão social e coletiva. Na Europa, formas de recuperação urbana estão em andamento de forma generalizada, inspiradas no New European Bauhaus, programa ambiental, econômico e cultural destinado aos países da União Europeia. Acessibilidade, inclusão e sustentabilidade são os princípios básicos da nova arquitetura que deverá ser expressão da economia circular.
Quais foram os esforços institucionais para estabelecer a arquitetura regenerativa como política pública?
A regeneração urbana tem custos diretos maiores do que a prática de urbanização de estender a cidade ocupando solos virgens. É necessário adquirir uma sensibilidade especial em relação ao patrimônio existente “material” e “imaterial”, humano e natural, como um conjunto de testemunhos e conhecimentos, memórias, a que dar valor. Para fazer isso, é necessário sensibilizar todos os atores sobre o fato de que modificar os lugares com esses pressupostos é um ato necessário e irrenunciável em relação aos próprios lugares e aos seus habitantes passados, presentes e futuros. As instituições estatais na Itália, desde 2015, manifestaram-se sensíveis a essas considerações e providenciaram o financiamento de tais intervenções com contribuições significativas. É necessário que essa sensibilidade seja adquirida na prática, independentemente das diversidades de abordagem metodológica e arquitetônica.

Arquiteta Nadia Calzolari
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável relacionado
ODS 11 – Cidades e comunidades sustentáveis – Tornar as cidades e comunidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis